sábado, 5 de julho de 2014

A AUTOPROMOÇÃO DO MINISTRO EM DETRIMENTO DA PROMOÇÃO DE CRISTO

Um fato que deve ser combatido veementemente e substituído por uma compreensão e consequente prática do senhorio de Cristo em nosso ministério

TEXTOS BÍBLICOS: At 20.24; 2Co 4.9,10; Fp 3.7-10

Por: Oswaldo Luiz Gomes Jacob*

É impressionante o número de pastores que se autopromovem, colocam fotos na entrada do templo, apreciam o elogio e a tietagem. Homens que gostam do pódio, de estarem no auge, bajulados e considerados semideuses. A nossa natureza humana gosta dessas coisas. Essa é a síndrome adâmica. É lamentável o número de obreiros antipáticos, arrogantes, sofisticados, vaidosos e tomados de uma filosofia de autopromoção que me causa aversão.
A história da cristandade não foi construída pelos que se arrogam alguma coisa, mas por homens e mulheres de Deus que a si mesmos se humilharam diante da Majestade, Sublimidade, Grandeza e Soberania de Deus. Toda vez que faço uma leitura da vida de Jesus, vejo-o como uma pessoa totalmente despida de si mesma. Os profetas do AT, homens de Deus, eram muito conscientes de suas próprias fraquezas. Destacamos Moisés, Elias, Eliseu, Jeremias, Isaías, Zacarias, Daniel e Ezequiel. Já no limiar entre o AT e o NT, vemos João Batista. Todos foram homens intrépidos e ousados, mas humildes em sua expressão e no exercício dos seus respectivos ministérios, porque sabiam quem era o que os havia chamado. Isso faz toda a diferença! A concepção que faço de mim mesmo sempre dependerá da minha convicção de quem é Deus. A Pessoa de Deus determina a minha pessoa. A visão de Deus é o que define a minha visão.

Olhando para a realidade do NT pós-Jesus, destacamos a vida de Pedro em suas fases difíceis: Evangelhos (adolescente), Atos (jovem) e Cartas (adulto). Depois, temos Paulo, o apóstolo abortivo. Nos três textos lidos, percebemos a consciência amadurecida que ele possuía do Senhor, de si mesmo e do povo a quem servia. No encontro com os presbíteros de Éfeso, o velho apóstolo se despede a caminho de Roma. A sua despedida foi impressionante e um lenitivo para aqueles pastores. Ele declarou peremptoriamente que a sua vida não era mais importante do que a sua missão. Arrogar-se não fazia parte do seu vocabulário cristão. Ele recebeu a missão do Senhor Jesus e estava disposto a morrer por ela. Paulo era uma espécie de homem de Deus visceralmente comprometido com a missão de proclamar o Cristo crucificado e ressurreto (1Co 2.1,2).

No texto aos coríntios (2Co 4.9,10), o missionário Paulo declara: trago no meu corpo o morrer de Jesus para que a sua vida se manifeste em minha carne mortal. Para ele, o viver era Cristo e o morrer, lucro (Fp 1.21). A vida de Cristo era muito mais importante do que a sua própria vida. Ele estava absolutamente absorto pela vida de Cristo (Gl 2.20). Havia uma simbiose muito forte entre Paulo e Jesus. Paulo não estava preocupado com fama, pódio, tietagem, propaganda, autopromoção. Não estava acometido pela síndrome do pequeno reino. Era um homem desprovido de si mesmo, para viver a vida de Cristo: Não mais eu, MAS CRISTO. Não mais o que penso... não mais o que sinto... não mais o que quero... não mais as minhas opiniões... não mais os meus desejos... não mais os meus sonhos... não mais os meus mimos...

Aos filipenses, ele foi fantástico. Ele, que havia sido Saulo, que gostava de poder, pódio, reconhecimento, fama, confetes, agora, é Paulo, que considera tudo isso como esterco para poder ganhar a Cristo (Fp 3.7-10). Cristo era a razão de todas as coisas; a medida de tudo o mais; o referencial absoluto. Paulo não possuía mais uma justiça religiosa, legalista, mas a justiça de Cristo Jesus. Não mais a justiça da lei, mas a justiça da fé (Hc 2.4; Rm 1.17). Não mais a justiça com base em desempenho pessoal, mas com base na suficiência de Cristo na cruz e na ressurreição. Não mais mérito pessoal, mas o de Cristo Jesus. Não mais sentimentalismo, mas uma vida pela fé.

Aprecio muito o que Aiden Wilson Tozer (um dos meus autores preferidos) declara num preciosíssimo texto intitulado “A BÊNÇÃO DE NÃO POSSUIR NADA”, comentando o texto de Jesus: Bem aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus (Mt 5.3):

“Nossos ‘ais’ tiveram começo quando o homem forçou Deus a sair de seu santuário central, e deu permissão às ‘coisas’ de ali penetrar. Uma vez dentro do coração humano, as ‘coisas’ passaram a imperar. O homem, por natureza, não mais goza de paz em seu coração, pois Deus não se acha mais entronizado ali: pelo contrário, na obscuridade moral da alma humana, usurpadores teimosos e agressivos lutam entre si, procurando ocupar esse trono.
Dentro do homem há um coração empedernido cuja natureza e intento é sempre possuir, possuir (coisas, fama, trono, pódio, admiração, glória pessoal). O Senhor Jesus referiu-se a essa tirania das COISAS quando disse aos Seus discípulos (Mt 16.24,25: Se alguém quiser...).
Não há duvida de que esse apego possessivo às coisas é um dos hábitos mais daninhos da vida. Por ser ele tão natural e generalizado, raramente é reconhecido como um mal, todavia, seus efeitos são realmente trágicos.
Se queremos de fato conhecer a Deus em crescente intimidade, precisamos palmilhar o caminho da renúncia”. (Tozer, 1985: 20-27).
Copiei, na capa da minha Bíblia, a seguinte oração feita por um cristão da Idade Média:

“Ó Jesus, manso e humilde de coração, ouve-me.
Livra-me, Jesus, do desejo de ser estimado,
Do desejo de ser amado,
Do desejo de ser exaltado,
Do desejo de ser honrado,
Do desejo de ser louvado,
Do desejo de ser preferido a outros,
Do desejo de ser consultado,
Do desejo de ser aprovado,
Do medo de ser humilhado,
Do medo de ser desprezado,
Do medo de ser repreendido,
Do medo de ser esquecido,
Do medo de ser ridicularizado,
Do medo de ser prejudicado,
Do medo de ser alvo de suspeitas.
E, Jesus, concede-me a graça de desejar que outros possam ser mais amados que eu, que outros possam ser mais estimados que eu, que na opinião do mundo, outros possam crescer e eu diminuir; que outros possam ser escolhidos e eu posto à parte; que outros possam ser louvados e eu passe despercebido; que outros possam ser preferidos em tudo, que outros possam tornar-se mais santos do que eu, contanto que eu me torne tão santo quanto devo ser”.
Concluo, citando a oração de Tozer:

“Pai, desejo conhecer-te, mas meu coração covarde teme desistir de seus brinquedos. Não posso desfazer-me deles sem sangrar por dentro, e não procuro esconder de ti o terror da separação. Venho tremendo, mas venho. Por favor, extirpa do meu coração todas aquelas coisas que estou amando há tanto tempo, e que se têm tornado parte integrante deste ‘viver para mim mesmo’, a fim de que tu possas entrar e habitar ali sem qualquer rival. Então tornará glorioso o estrado dos teus pés. Meu coração não terá mais necessidade da luz do sol, porquanto tu mesmo serás o sol iluminador, e ali não haverá mais noite. Em nome de Jesus. Amém.”

*Oswaldo Luiz Gomes Jacob
é pastor titular na Segunda Igreja Batista em Barra Mansa, RJ.
Email: pitzerjacob@gmail.com
Artigo publicado na Revista Palavra & Vida
(Revista de Estudo Bíblico Trimestral da Convenção Batista Fluminense),
na seção Apoio Pastoral.
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